Uso racional dos recursos hídricos se destaca na estratégia das mineradoras
Novas tecnologias ajudam na gestão da água em diferentes etapas; segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a disponibilidade hídrica pode cair mais de 40% em regiões hidrográficas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste até 2040
Recurso indispensável na atividade de mineração, a água está presente em cada detalhe do processo – desde as investigações exploratórias até as operações de fechamento de uma mina.
Seu uso é tão amplo quanto os pontos de atenção, que passam pela gestão da quantidade e da qualidade dos recursos hídricos, dos rejeitos, dos efluentes; a governança de dados na gestão sustentável; a resiliência hídrica em um contexto de mudança climática; plano de gestão para garantir o fornecimento e a continuidade do negócio.
“A água é um bem finito com alto valor social, cultural, ambiental e econômico. Na mesma medida, os demais recursos minerais são essenciais à qualidade de vida e à promoção socioeconômica e ambiental da sociedade contemporânea”, sintetiza Raul Jungmann, diretor presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Construção da pauta da água
O Ibram tem avançado de forma consistente na agenda desse recurso natural. Em 2000, o instituto lançou o Programa Especial de Recursos Hídricos (PERH). Na mesma época, a entidade passou a integrar, por exemplo, o Conselho Nacional e Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, e Comitês de Bacias Hidrográficas de rios federais e estaduais.
Outro passo importante foi dado ao integrar o tema à sua Agenda ESG da Mineração do Brasil, um documento em que, dentre outros compromissos, está o de estimular e ampliar o uso consciente e racional dos recursos hídricos em seus processos produtivos, além de incentivar a preservação dos mananciais e adotar iniciativas que ampliem a oferta hídrica dos rios e que melhorem a qualidade da água.
Em abril de 2024, em mais um passo, o Ibram e a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) apresentaram a publicação “Perspectivas e Avanços da Gestão de Recursos Hídricos na Mineração”, que dentre outros, destacou a relevância crescente da necessidade de adaptação às mudanças do clima.
“A utilização das diversas ferramentas disponíveis e o acesso às oportunidades de financiamento climático, podem auxiliar a catalisar esse movimento rumo à resiliência climática na mineração. Além disso, o acompanhamento das regulamentações, iniciativas e ações nos níveis público e privado, tanto nacionais quanto internacionais, pode abrir espaço para a organização do setor em torno deste tema, trazendo benefícios para toda a cadeia da mineração e, consequentemente, para a sociedade”, destaca o documento.
As projeções para a oferta de água, influenciada pelos extremos climáticos, justificam o olhar mais cuidadoso do setor para o recurso natural. Dados da primeira edição do estudo Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos do Brasil, divulgado pela ANA em janeiro deste ano, mostram que a disponibilidade hídrica pode cair mais de 40% em regiões hidrográficas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste até 2040.
Na prática
Paralelamente ao avanço das atividades operacionais, as empresas têm avançado com iniciativas, como no caso da Alcoa, que tem uma política global de gestão de águas, a Alcoa Water Stewardship Policy, responsável por trazer os critérios gerais a serem adotados em todas as operações.
“Alinhados à política da empresa, são desdobrados procedimentos operacionais e estabelecidos KPIs de acompanhamento mensal da alta liderança da companhia e do planejamento de longo prazo”, explica Thaiza Couto Bissacot, diretora Regional de Meio Ambiente da Alcoa.
A Alcoa tem uma meta global de, a partir de um baseline de 2015, reduzir a intensidade do uso total de água em áreas de escassez hídrica em 5% até 2025 e em 10% até 2030. Para chegar a essa meta, segundo a executiva da empresa, além de manter e fortalecer a conexão com hubs e inovação, como o Mining Hub, são feitos investimentos em tecnologias.
Entre as iniciativas estão a otimização de processos para aumentar a eficiência hídrica (menor demanda de água); desenvolvimento de ferramentas de disposição de resíduo/rejeito a seco (como a filtração e dry stacking em Poços de Caldas-MG); recirculação de água de processo (como as torres de resfriamento na unidade da Alumar e a de Poços de Caldas); recirculação de água sobrenadante em estruturas de disposição de rejeito (em Juruti-PA); reuso de efluentes sanitários tratados (Alumar) e reuso de água de processo de outras indústrias (Alumar reusa efluentes da Ambev em São Luís-MA).
Inovação
A tecnologia, como explica David Soares, gerente de Gestão de Recursos Hídricos da Water Services and Technologies, tem avançado de forma significativa em áreas como monitoramento, sistemas de gerenciamento, sistemas de tratamento de água e efluentes, modelagem numérica, assim como nos métodos de produção.
“A gestão eficiente dos recursos hídricos traz ganhos financeiros, ambientais e sociais. Por exemplo, a utilização de água de qualidade inadequada no processo produtivo do minério pode levar a paradas na produção, pois alguns produtos adicionados ao processo podem não reagir adequadamente, resultando em perdas produtivas”, exemplifica Soares.
Além disso, acrescenta o gerente, pode aumentar a necessidade de manutenção dos equipamentos ou reduzir sua vida útil. Para alocar água nos diversos usos dentro de uma unidade mineradora, geralmente é necessário bombeamento, o que implica em custos com energia.
Como detalha Soares, a partir do monitoramento da operação, são gerados indicadores dos recursos hídricos, que incluem a eficiência do uso da água alocada na unidade produtiva.
“Os indicadores de eficiência são, para a grande maioria das mineradoras, metas importantes. Além disso, o setor estabeleceu uma meta de redução do uso de água que foi lançada pelo Ibram em 2019”, cita o executivo.
Atualmente, de acordo com o gerente da Water Services and Technologies, o setor tem buscado entender melhor aspectos como disponibilidade hídrica, balanço hídrico, governança, gerenciamento de dados, modelagem hidrológica e hidráulica, além da classificação das bacias hidrográficas em relação ao nível de estresse hídrico e métodos de tratamento de água e efluentes. A empresa oferece soluções nas áreas de hidrogeoquímica, hidrogeologia, hidrogeotecnia, gestão de recursos hídricos, gerenciamento de dados e inovação.









