COP30 marca avanço do papel das empresas na agenda climática
A Conferência evidenciou que o avanço das metas depende, em grande parte, da capacidade das empresas de colocar as medidas acordadas em prática
Se é fato que a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em novembro, em Belém (PA), ficou conhecida como a “COP da execução”, marcando a transição do discurso para a prática, também é correto afirmar que as empresas passaram a ocupar um papel central nesse processo.
O presidente da COP, embaixador André Corrêa do Lago, afirmou publicamente, à época do evento, que o nível de engajamento do setor privado o impressionou. E a percepção não foi casual. A consultoria Beon, que acompanha o mercado e o engajamento empresarial em ESG, tem mostrado em suas pesquisas um crescimento na adoção da agenda. O mapeamento “A maturidade social, ambiental e de governança nas empresas brasileiras” indicou um aumento na existência de uma estratégia de sustentabilidade nas empresas. Em 2021, o percentual era de 37%, e em 2024 saltou para 51%.
“As empresas têm se engajado mais com a agenda, por constatar que não adianta ignorar o problema, porque ele não vai deixar de existir. E que, portanto, é melhor ter uma participação ativa, seja para reduzir impactos, seja, eventualmente, para construir valor”, avalia Danilo Maeda, CEO da Beon ESG.
Diretrizes globais e avanços no Brasil
As diretrizes previstas no texto final da COP30 e os acordos firmados entre os países dão a tônica do que cada nação pode fazer para ajudar a enfrentar a crise climática nos próximos anos.
Uma dessas iniciativas trata do mercado de carbono, que avançou com a criação de uma coalização, liderada pelo Brasil, reunindo 18 países - com a adesão de China, União Europeia e Reino Unido. “Essa agenda já existe há alguns anos e agora deu um importante passo, que é a implementação”, destaca Maeda.
O governo brasileiro também aproveitou o calendário da Conferência para apresentar a versão final da Taxonomia Sustentável Brasileira, documento que estabelece diretrizes para identificar atividades econômicas de acordo com seus impactos climáticos, e propor a chamada Super Taxonomia, mecanismo que permite a investidores, governos e empresas comparar níveis de sustentabilidade entre países a partir de parâmetros oficiais.
Todos esses instrumentos, do texto final às novas regulações, exigem adequação das empresas e mostram que a execução das ações ocorre também no cotidiano das organizações.
“O setor privado é o principal agente na implementação do combate às mudanças climáticas. No fim do dia, colocar o que foi discutido em prática depende grandemente das empresas, porque são elas que produzem os impactos, e terão que concretizar as medidas necessárias para mitigar esses efeitos. Essa COP reforçou esse entendimento de que não haverá uma solução única”, diz Maeda.
Ajinomoto e Banco do Brasil: um caso de integração
A companhia do ramo alimentício e a instituição financeira firmaram, durante a COP30, um memorando de entendimento para estruturar uma colaboração voltada ao financiamento verde e ao apoio à descarbonização da pecuária.
A parceria prevê que o Banco do Brasil ofereça condições específicas de crédito para produtores que adotarem tecnologias sustentáveis, desenvolvidas pela multinacional japonesa.
O primeiro foco da cooperação é a ampliação do AjiPro™ L, aditivo que otimiza o aproveitamento da proteína da dieta e reduz a necessidade de insumos proteicos na alimentação do gado. A inovação contribui para a diminuição de emissões associadas aos sistemas pecuários e permite ganhos de produtividade. A lógica do arranjo envolve a oferta de financiamento para que produtores incorporem a solução em seus sistemas, criando condições para que a adoção ocorra de maneira mais ampla.
“O caso Ajinomoto é um exemplo de como o contexto atual incentiva o setor privado a desenvolver soluções, pois à medida que a necessidade de reduzir emissões no setor pecuarista se impõe, tornam-se possíveis iniciativas como essas. Ou seja, eu posso ter um produto que ajuda a endereçar uma parte do problema e, nesse pacto, um agente financiador que cria uma linha de subsídio. Esse tipo de movimento vai se tornar mais comum, com soluções que aceleram o processo. O setor privado, geralmente, é o principal fornecedor desse tipo de medida. O poder público, por sua vez, terá que estruturar mecanismos para que isso se torne cada vez mais frequente, possibilitando uma intensificação da agenda sustentável”, completa Maeda.
Expertise para mudar
Para acompanhar o ritmo das mudanças, as empresas precisam compreender como transformar as decisões da COP em ações concretas. A Beon esteve na Conferência, produzindo relatórios e análises sobre tendências, riscos e impactos regulatórios, com foco em apoiar empresas na interpretação das decisões do evento e na preparação de suas estratégias climáticas.
“Temos o papel de ser um guia do percurso. Aqui, oferecemos uma visão geral aplicável a todos. Mas, em cada negócio, a tradução e o entendimento de como essas decisões podem impactar a organização precisam ser feitos com o nível de detalhe adequado a cada realidade. Nosso trabalho é apoiar a definição de caminhos e a interpretação dos riscos e de oportunidades específicas de cada empresa”, afirma Maeda.









