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Por UBS

Atualizado

O papel do Brasil no cenário econômico mundial foi o ponto central das discussões do segundo dia da Latin America Investment Conference 2024, evento realizado pelo UBS¹ e UBS BB, em São Paulo (SP). Em um período ainda marcado pela volatilidade de mercados e pela instabilidade geopolítica, os caminhos para retomar o crescimento — e aumentar o protagonismo do país — devem continuar a passar pela adaptação a políticas monetárias internacionais, ajustes de gastos públicos e movimentos globais de inovação e sustentabilidade.

Entre as diversas conjunturas apresentadas ao longo da programação, Arend Kapteyn, economista-chefe do UBS, destacou o risco de novos ciclos de recessão nos próximos meses. Os principais gargalos apontados por Kapteyn incluem a desaceleração da economia chinesa e os efeitos prolongados da política monetária americana. “A economia dos Estados Unidos está cheia de contradições. Os níveis de consumo estão altos, mas não são sustentáveis. Ainda não conseguimos observar os gatilhos tradicionais de recessão, mas acredito que estamos próximos de um momento de contração dos empregos, por exemplo”, afirmou.

Embora seja desafiador, o contexto atual ainda reserva um horizonte promissor para as gestoras de investimentos. O equilíbrio entre otimismo e pragmatismo foi defendido por Alejo Czerwonko, CIO de Mercados Emergentes das Américas no UBS. “O cenário de recessão é possível, assim como também é possível um cenário de soft landing na economia americana e nos mercados emergentes. O ambiente de negócios continuará complexo, mas seguirá apresentando potenciais de retorno consistentes”, afirmou. “Neste momento, a formação de portfólios que combinem qualidade e diversidade de ativos se mostram como a melhor opção para os investidores”, disse Czerwonko.

A criação de portfólios mais seguros e previsíveis está em sintonia com o reajuste de expectativas e as mudanças de estratégias de saída observadas entre investidores de diversos setores. A era de ouro dos valuations parece ter chegado ao fim — e não deve voltar ao patamar anterior, mesmo com as quedas nas taxas de juros. “Mesmo os bons projetos estão tendo mais dificuldades para captar recursos. É necessário cautela, mas temos registrado ótimos diálogos com empreendedores de áreas estratégicas, como finanças, agronegócios, saúde e telecomunicações”, afirmou Ricardo Scavazza, CEO de Private Equity do Pátria Investimentos, em painel dedicado ao tema.

Em meio a esse conjunto de riscos e oportunidades, o cenário global pode resultar em um retrato promissor para a economia brasileira. A estabilidade geopolítica, a queda na taxa de juros, o espaço para sustentabilidade e o nível dos preços de commodities estão entre os fatores que podem contribuir para a consolidação de um panorama mais favorável. As perspectivas mais otimistas, no entanto, foram apresentadas de maneira cautelosa por nomes como Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset Management. “O Brasil atual parece cada vez mais um bom lugar para alocar capital. Eu não diria no máximo possível, mas moderadamente. Um otimismo moderado”, destacou.

Ao centro, Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset Management. — Foto: Ricardo Matsukawa/ Divulgação
Ao centro, Luis Stuhlberger, CEO e CIO da Verde Asset Management. — Foto: Ricardo Matsukawa/ Divulgação

Legado das instituições

Por trás de todas as possibilidades, caminhos e desafios, o futuro da economia brasileira passa pelo fortalecimento dos canais de diálogo nas esferas públicas, pela previsibilidade das políticas monetárias e pelo clima de segurança institucional. Um dos destaques da LAIC 2024, o ex-presidente Michel Temer reforçou a necessidade de estabelecer políticas de continuidade entre programas de governo.

Michel Temer, ex-presidente da República. — Foto: Marcelo Pereira /Divulgação
Michel Temer, ex-presidente da República. — Foto: Marcelo Pereira /Divulgação

Questionado sobre suas percepções sobre o primeiro ano do governo atual, Temer destacou a redução do clima de polarização e a abertura para a multilateralidade, o que pode beneficiar não apenas a balança comercial, mas a agenda de tecnologia e inovação de diversos setores. “A multilateralidade é fundamental para o Brasil. É preciso manter o diálogo aberto com todas as nações. A relação entre os países não é mais apenas político-institucional, é basicamente uma relação comercial. Acho que o governo atual está tentando fazer isso, mas precisa firmar condições mais sólidas dessa natureza”, explicou.

No panorama de curto prazo, o controle das contas públicas deve continuar como um dos principais desafios para acertar os rumos econômicos do país. Nesse sentido, o déficit primário de R$ 230,5 bilhões, registrado em 2023, traz um indicador claro da dimensão do problema. As percepções de governos regionais sobre o balanço fiscal e os efeitos da reforma tributária aprovada em dezembro foram compartilhadas em um painel que reuniu os governadores Eduardo Leite (RS) e Mauro Mendes (MT). “O cidadão brasileiro tem uma expectativa de pagar menos impostos. Mas isso só vai acontecer quando tivermos um Estado mais eficiente”, afirmou Mendes.

Embora tenha apresentado algumas críticas ao texto aprovado — principalmente no que diz respeito aos mecanismos de subsídios para determinadas regiões e setores —, Leite destacou a importância de avançar com uma agenda colaborativa para reduzir a dívida pública e buscar novas fontes de receita. “O ministro da Fazenda [Fernando Haddad] tem sido bastante atencioso em relação às discussões sobre a dívida do Estado e à construção de soluções. É muito importante que o país alcance esse equilíbrio fiscal e sinalize compromisso com as contas públicas para que possamos evoluir rumo a maiores reduções nos juros”, finalizou Leite.

Da esquerda para a direita: Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul; Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS GWM; e Mauro Mendes, governador do Mato Grosso. — Foto: Marcelo Pereira /Divulgação
Da esquerda para a direita: Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul; Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS GWM; e Mauro Mendes, governador do Mato Grosso. — Foto: Marcelo Pereira /Divulgação

Força do empreendedorismo

Da movimentação do mercado consumidor à geração de empregos, a vocação para o empreendedorismo vem se mostrando como um dos principais diferenciais competitivos do ambiente de negócios nacional. As lições de liderança de grandes empresários do país foram apresentadas em um painel que reuniu João Adibe Marques, CEO do Grupo Cimed, Alexandre Birman, CEO da Arezzo&Co, e Felipe Guerra, fundador e CIO da Legacy Capital.

À frente de uma operação que reúne mais de mil lojas e faturamento anual na casa dos R$ 5 bilhões, Birman destaca o papel dos empreendedores para destravar o crescimento de setores-chave da economia. “O Brasil é um país muito complexo. As marcas internacionais têm uma dificuldade enorme para operar aqui”, disse Birman. “Temos uma geração de empresários que conseguiu formar grandes organizações em meio a todas as transformações que o país enfrentou nas últimas décadas. Os desafios locais ajudam a formar gestores muito resilientes”, afirmou.

Na visão de Guerra, a criatividade da comunidade empreendedora também pode ser observada na identificação de diferenciais competitivos em meio aos sucessivos ciclos de alta e baixa da economia nacional. “Entendemos que os solavancos que aparecem pelo caminho são bons momentos para buscar talentos e explorar assimetrias de mercado. É durante esses períodos que costumamos atrair alguns de nossos melhores colaboradores e mapear janelas de oportunidade que ninguém está analisando”, apontou Guerra.

Para Adibe, da Cimed, um dos principais grupos farmacêuticos do país, o desenvolvimento de novos negócios no Brasil — e seu impacto sobre a economia local — também envolve uma análise profunda de públicos e estruturas regulatórias e fiscais de diferentes regiões. “O mercado consumidor interno tem uma força enorme. Mas é preciso sair da própria bolha para criar empresas que combinem atuação nacional com pensamento regional. As regras e as dinâmicas de vendas variam muito de acordo com a realidade de cada estado”, afirmou.

Economia verde: governança e inovação

Ainda existe muita incerteza sobre a atividade econômica dos próximos meses. Em meio às dúvidas sobre políticas monetárias e crises geopolíticas, a aceleração da agenda ESG vem surgindo como um consenso nas estratégias de empresários, gestores públicos e investidores. Na opinião de Denísio Liberato, presidente da BB Asset, a transição para modelos sustentáveis deve passar cada vez mais pela formação de novas estruturas de governança. “A mudança concreta começa pela atuação dos conselhos. Para que isso aconteça, é necessário formar boards diversos. Se todos os membros forem muito parecidos, as decisões tendem a ficar mais frias e superficiais”, afirmou Liberato, durante participação no evento.

Os novos direcionamentos de ESG também incluem visões mais abrangentes sobre a relação das empresas com suas cadeias de stakeholders. Karla Bertocco, sócia e diretora de infraestrutura e saneamento do Mauá Capital, destaca esse aspecto como um critério cada vez mais decisivo nas análises sobre investimentos. “A relação das empresas com as comunidades em seus entornos será um ponto crucial para captar recursos. Os esforços de governança precisarão contemplar um olhar mais apurado para a cadeia de suprimentos, sobretudo entre empresas de médio porte”, disse.

Entre a governança e a visão sistêmica, a inteligência artificial continuará despontando como um elemento transversal para o desenvolvimento de novas frentes de impacto social. Para James Gifford, Head de Impacto e Sustentabilidade do UBS (e um dos criadores da sigla ESG), a popularização das tecnologias de IA Generativa tem o poder de mudar o jogo na criação e na aceleração de pequenos e médios negócios. “Essas plataformas podem ampliar habilidades de empreendedores e elevar seus projetos de maneira muito simples e intuitiva. O potencial de alívio à pobreza e desenvolvimento econômico é enorme”, afirmou Gilford.

À direita, James Gifford, Head de Impacto e Sustentabilidade do UBS. — Foto: Alan Morici/ Divulgação
À direita, James Gifford, Head de Impacto e Sustentabilidade do UBS. — Foto: Alan Morici/ Divulgação

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¹ Credit Suisse, part of UBS Group.

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Este material é meramente informativo e não constitui nenhum tipo de análise de valores mobiliários, recomendação ou prestação de serviço de qualquer natureza.

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