América Latina ocupa posição privilegiada na transição energética, mas não pode perder oportunidades
Ex-presidente do Chile, Sebastián Piñera, destaca desafios para a democracia, integração econômica e seguridade social para o futuro da região
Melhorar a qualidade das políticas públicas e fortalecer a democracia serão determinantes para que a América Latina aproveite as enormes oportunidades de crescimento que a região terá pela frente ao longo desta década. A análise é do ex-presidente do Chile, Sebastián Piñera, na abertura da Latin America Investment Conference 2024, evento realizado pelo UBS¹ e UBS BB, em São Paulo (SP), nos dias 29 e 30 de janeiro. “A América Latina possui uma condição privilegiada de recursos naturais e condições geopolíticas, mas precisamos fazer muito mais para aproveitar as oportunidades”, ressaltou o mandatário chileno de 2010 a 2014, e entre 2018 e 2022.
Marcello Chilov, Head de Global Wealth Management LatAm do UBS e CEO do Credit Suisse Brasil (CS), reforçou aos investidores que o UBS inicia o ciclo de 2024 em posição muito sólida após a combinação com o CS, com US$ 250 bilhões em ativos sob gestão na América Latina. “O Brasil foi o primeiro país a enfrentar a inflação e temos outros países seguindo o mesmo caminho, por isso identificamos um momento de muitas oportunidades”, afirmou.
Entre as oportunidades que a América Latina dispõe, Piñera enumerou quatro pilares: a condição invejável para geração de energias renováveis não convencionais, a posse de mais de 30% das reservas de água doce do mundo, reservas minerais abundantes (55% do lítio e 40% do cobre), mais de 40% da capacidade global de crescimento na agricultura, turismo e, por fim, enorme potencial social e produção de conhecimento. “O mundo está falando de nearshoring e de risking, tudo o que a América Latina tem para oferecer. Mas precisamos melhorar muito em políticas sociais, redução da pobreza e investimento em educação.
Meio ambiente como ativo estratégico
Ocupando a presidência do G-20 e tendo à frente o desafio de sediar a COP-30 em Belém, em 2025, o Brasil ilustra o protagonismo que a América Latina pode oferecer neste momento de transição econômica e geopolítica. “O Brasil pode ser esse lugar em que o mundo encontrará as respostas para a segurança alimentar e energética, mas não podemos perder essa janela”, salientou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
Representante de destaque do país no Fórum Econômico Mundial em Davos, entre 15 e 19 de janeiro, a ministra viu de maneira positiva a posição de lideranças do mercado financeiro, grandes empresas e filantropos em associar investimento à defesa do meio-ambiente. “A mensagem que passamos é a de que o Brasil não só voltou, mas já se instalou. O mercado está interessado no que estamos fazendo para atrelar desenvolvimento econômico com políticas ambientais”, afirmou.
Sylvia Coutinho, Country Head para Brasil e Regional Lead para América Latina no UBS, enfatizou como a questão ambiental assumiu peso importante nas políticas ESG de investidores, o que abre espaço para que países como o Brasil criem alternativas de monetização desse patrimônio. “O potencial brasileiro parte de um nível até maior do que muitos países europeus, já que o país possui os maiores ativos ambientais do planeta”, apontou.
Entre os resultados do primeiro ano de governo, Marina destacou o esforço concentrado para reconstruir as políticas públicas de meio-ambiente, a partir de uma visão transversal por todos os ministérios, e a consequente redução de 62% no desmatamento da Amazônia. O desafio é destravar o potencial econômico do meio ambiente. “O Plano Safra saiu de 2% para 100% de crédito associado à agricultura de baixo carbono. Nosso grande projeto agora é mapear a Amazônia Azul – todo o potencial ambiental do espaço marinho brasileiro, incluindo a geração de energia eólica offshore”.
Geopolítica do futuro: os limites da globalização
Niall Ferguson, professor de história na Universidade de Harvard, relativizou a suposta supremacia chinesa e os riscos de uma desestruturação das democracias liberais do Ocidente, enfatizando como os Estados Unidos, sob qualquer indicador, seguem sendo o grande motor econômico do mundo.
Para o acadêmico, enquanto as tensões em torno de Taiwan se mantiverem em um nível aceitável entre Estados Unidos e China, a ordem global segue poucos riscos de disrupção, em um momento de acomodação da economia global. “A globalização não está nem perto de acabar, mas a crise de 2008 mostrou que atingimos um platô e agora é o momento de acomodação”.
O professor Marcos Troyjo, fellow da Universidade de Oxford e Insead, acredita que o mundo está passando por um “choque de globalizações”, provocado pela dependência cada vez maior da China em questões comerciais. “O Brasil precisa ser muito pragmático nessa relação. É positivo fazer uma opção pelos países emergentes, mas o país tem muito a ganhar também se aproximando das economias desenvolvidas em torno da OCDE”.
Ferguson acrescenta que o Brasil se tornou importante o suficiente para não se alinhar com nenhum dos lados, entre EUA e China. “Está claro que o Brasil é uma democracia de valores ocidentais, mas não precisa manter uma posição fixa de alinhamento ou neutralidade. Pode se relacionar com os dois lados e analisar as melhores opções de acordo com o momento”. Ferguson destaca ainda que a América Latina pode agora encontrar seu momento mais brilhante, ao reduzir o gap histórico com o mundo desenvolvido a partir de tecnologias como a inteligência artificial.
O Brasil e a inteligência artificial
O potencial transformador da inteligência artificial, conforme ressaltado pelo professor da Universidade de Harvard, pode ser um divisor de águas para o Brasil, desde que o país seja mais ambicioso na adoção da tecnologia. “O elemento surpresa da transformação digital é o Brasil, porque a Ásia e os Estados Unidos são players esperados. Mas nós continuamos sendo muito conservadores na adoção da tecnologia”, provocou Christian Reis, diretor da Magalu Cloud, do Magazine Luiza.
O varejo, por sua vez, é um dos setores que está avançando mais rápido na adoção da IA e começa a sair da primeira fase de implementação, que traz recursos como chatbots e prevenção a fraudes. “As pequenas e médias empresas estão agora entrando na automatização de processos, principalmente em serviços de marketing, como criação de campanhas e targeting e produtos. É a segunda onda do IA que está chegando”, explicou Fernando Cirne, CEO da Locaweb.
Rodrigo Nasser, sócio da Aster Capital, destaca que uma mudança cultural importante que começa a aparecer no Brasil com a IA é o foco dos investimentos em tecnologia, que historicamente visa à redução de custos. “As empresas estão olhando mais para a oportunidade, a geração de receita, é uma mudança muito grande”.
Portfólio macro para 2024
Do ponto de vista dos investidores, o mercado trabalha com a perspectiva de uma acomodação global da inflação e recuo das taxas de juros. A principal estimativa é de que o FED iniciará o ciclo de corte de juros nos Estados Unidos entre março e maio, o que abre um novo cenário para a gestão de portfólio. Bruno Coutinho, CEO e CIO do Mar Asset Management, avalia que 2023 foi um ano de reacomodação dos efeitos colaterais das medidas impostas para mitigar os efeitos da pandemia, que provocaram uma onda inflacionária e elevação dos juros. “Em 2024, estamos voltando ao normal pré-pandemia e isso abre espaço para alocar risco”, calculou.
Para Rodrigo Azevedo, CEO e CIO da Ibiúna Investimentos, o mercado já precificou a taxa americana neutra em 3,25% ao longo dos próximos 18 meses, avaliando que o comportamento da economia global será mais parecido com o período de 2000 a 2008, quando os juros médios eram mais altos. “Mas se o novo normal for o período de 2009 a 2019, quando os juros estavam próximos de zero – e a pandemia foi só uma exceção – será uma oportunidade histórica para investimento”, afirmou.
No Brasil, jovens gestoras do mercado estão apostando na diversificação de negócios como estratégia de consolidação, como a Clave Capital, que tem preferência por fundos de taxas de até cinco anos e moedas emergentes. “Estamos olhando muito o cenário doméstico. Setores que estavam amaldiçoados vêm fazendo sua lição de casa e há empresas com preços decentes e potencial de apreciação muito interessantes”, calculou o sócio André Caldas.
Andre Bannwart, Head de Funds Solution para o Brasil no UBS, explicou que a gestora vem investindo em fundos previdenciários e está atenta a moedas emergentes e oportunidades na bolsa. “Os fundos macro têm tudo para ser o nosso cartão de visita”, disse, calculando que a China será um fator importante de deflação no cenário global, combinado com um cenário de muita resiliência na economia doméstica americana.
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¹ Credit Suisse, part of UBS Group.
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