“High yield” no Brasil: como investir com inteligência
Emissões de alto risco são reflexo de um mercado maduro em que o retorno precisa ser “conquistado”
Por Marcos Barros de Paula*
“High yield” em renda fixa são títulos que pagam juros mais altos porque o emissor apresenta maior risco de crédito. Em geral, trata-se de empresas ou estruturas financeiras que não possuem grau de investimento, exigindo um prêmio maior para compensar a probabilidade de inadimplência. Na prática, quanto maior o risco percebido, maior o spread em relação à taxa livre de risco.
Em um mundo de juros mais altos, margens pressionadas e ambiente de mais imprevisibilidade, deveríamos esperar uma redução no apetite a risco pelo investidor. Porém o que temos observado é que o crédito de maior risco ocupa um espaço mais central na engrenagem do financiamento corporativo.
Nos Estados Unidos, esse movimento é explícito. O mercado de junk bonds — títulos de empresas com rating abaixo do grau de investimento — já ultrapassa US$ 1,4 trilhão em estoque, com emissões anuais superiores a US$ 300 bilhões.
No Brasil, o “high yield” não aparece como rótulo formal. Ele se encontra nas debêntures de risco elevado, nos CRIs e CRAs estruturados, nos FIDCs e nos fundos de crédito privado mais agressivos. Em 2025, o mercado de capitais brasileiro bateu recorde de emissões, superando R$ 838 bilhões, com a renda fixa corporativa no centro desse avanço. Em menos de uma década, essa participação praticamente dobrou.
Mas há uma diferença essencial entre o “high yield” americano e o brasileiro: a transparência do risco. Nos EUA, o investidor sabe exatamente o que está comprando. O rating, o spread, a taxa de default histórica e a liquidez do papel fazem parte da precificação. No Brasil, muitas vezes o risco está embutido na estrutura, não no nome do produto. Um CRI ou um FIDC podem parecer “renda fixa”, mas carregar riscos típicos de private credit — com liquidez limitada, dependência de garantias e sensibilidade extrema ao ciclo econômico.
O crédito de maior risco cumpre um papel crucial: financia o crescimento onde o sistema bancário tradicional não alcança. Ele amplia o acesso ao capital, estimula inovação e sustenta empresas em ciclos de transição. O risco, portanto, é parte do motor.
O verdadeiro perigo está em ignorar sua natureza. Quando o investidor confunde prêmio com segurança, e quando a estrutura não é suficiente para compensar a volatilidade, cria-se uma falsa sensação de proteção. E, como sempre, ela só se revela quando o ciclo vira.
O investidor brasileiro olha primeiro a taxa. Quando é baixa, perde o interesse; quando é alta demais, desconfia. Mas nem toda taxa alta significa que se trata de um papel ruim, e nem toda comportada garante segurança.
Para aplicar com inteligência, algumas perguntas precisam ser bem esclarecidas: 1) Qual a qualidade do risco do emissor? 2) Qual a situação geral do setor? 3) Qual a estrutura da operação? Subordinação, garantias, covenants e mecanismos de proteção são essenciais.
Então, o “high yield” não é vilão nem herói. É simplesmente o reflexo de um mercado maduro em que o retorno precisa ser “conquistado”, não herdado.
A pergunta não é mais se ele veio para ficar, mas se estamos estruturando e precificando corretamente o risco assumido.
*Marcos Barros de Paula é economista com mais de 20 anos de experiência em gestão de crédito, produtos e transformação digital.









