Melhor gestão poderia otimizar produtividade agro
Estudo indica que em quase meio século o agronegócio cresceu rápida e consistentemente; para especialista da Falconi, setor ainda enfrenta desafios de gestão
Levantamento divulgado no mês passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, ao longo das últimas décadas, em cenários mais ou menos favoráveis, o agronegócio brasileiro apresentou crescimento rápido e consistente. O estudo feito em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP) revelou que a produtividade de atividades ligadas ao campo cresceu 400% entre 1975 e 2020.
“São números que impressionam, mas poderiam ser ainda melhores”, avalia Rodrigo Rodrigues, que recentemente assumiu o comando da Unidade de Negócios de Agronegócio na Falconi, maior consultoria brasileira de gestão empresarial e de pessoas. Para ele, o setor acelerou os investimentos em inovação na forma de produzir, mas não deu a mesma relevância à gestão do negócio.
“Muitos agricultores desconhecem os riscos que correm, sobretudo no que diz respeito à alta dos custos de produção”, comenta o executivo da Falconi. Um desafio, em específico, chama a atenção de Rodrigues: o perfil de produção na América Latina demanda escala. “Na agricultura tropical, como é o que temos na região, ganhar mais significa produzir mais.” O cenário, no entanto, poderia ser diferente se, mais uma vez, esses produtores passassem a aplicar boa gestão em seus negócios.
“Em muitos casos, o ajuste de governança trará às empresas, muitas delas familiares, uma produtividade mais alta”, afirma Rodrigues. Outra provocação levantada pelo executivo é a do papel das agtechs, startups que atuam no agronegócio, dentro desse cenário de eficiência.
Na sua avaliação, esses agentes têm a oportunidade de ajudar, sim, os produtores, principalmente nas questões de logística, digitalização e crédito. Porém, sem uma gestão profissionalizada, a atuação dessas startups se mostrará limitada. “Enquanto não houver consolidação dessa profissionalização das operações, haverá ineficiência, e acredito que sozinhas as agtechs não conseguirão resolver todos esses problemas.”
Rodrigues lembra que, no primeiro semestre de 2022, os resultados foram fortemente impulsionados pela flutuação cambial. “Temos visto, nos últimos três anos, as margens EBITDA praticamente dobrando em relação às margens históricas, passando da faixa de 20% a 25% para algo entre 40% e 50%.”
Apesar de o volume exportado pelo agronegócio brasileiro ter encolhido 1% na comparação com o período janeiro-junho de 2021, os preços em dólar subiram 28%. Com isso, o faturamento chegou a US$ 79 bilhões, 26% superior na comparação com o ano anterior, aponta o Cepea, com base nos dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia.
Contudo, o efeito do câmbio no faturamento talvez mascare um problema que pode apresentar a conta, alta, caso haja uma reversão de quadro cambial. “Se as taxas caírem, as margens vão despencar”, alerta Rodrigo Rodrigues. “E esse é o risco que correm aqueles quem tomaram decisões equivocadas de gestão. Por exemplo, aqueles que, para crescer rapidamente, contraíram dívidas demais, mas sem arrumar a casa antes.”
O especialista da Falconi salienta que a gestão eficiente no agronegócio dá ao produtor o que ele chama de “painel de controle” para dirigir seu negócio. Lembra que, à medida que a gestão das empresas do agronegócio melhora, novas oportunidades surgem. Cita como exemplo a expansão da agricultura regenerativa, ampliando seus efeitos para o mercado de crédito de carbono – fonte de receita com grande potencial no agro.
A boa gestão também tem um papel fundamental ao viabilizar um cuidado maior com as despesas de uma propriedade. Rodrigues aponta que, em média, elas podem variar de R$ 250 a R$ 1.000 por hectare. Tal discrepância entre os custos mínimo e máximo é mais um fator a confirmar a diferença de uma boa gestão no resultado.
“É nas despesas que o produtor tem condições de mexer, onde dá para ganhar ou perder”, vaticina Rodrigues, lembrando que o bom gestor consegue capturar valores que muitos perdem por displicência.
Uma boa gestão foca na melhoria do controle financeiro para assim, com o caixa mais saudável, ter condições mais favoráveis (de prazo e taxa de juros) junto às instituições financeiras. “Atuamos na identificação das perdas, tanto do lado de dentro da porteira quanto do lado de fora, melhorando processos com o objetivo de aumentar ganhos.”
Modelo de governança
No Brasil, as atividades ligadas ao agronegócio ainda estão em estágios muito diferentes quando se trata de gestão. Rodrigo Rodrigues, que antes da carreira como consultor foi diretor e CEO de empresas elogiadas pelos seus resultados, cita entre os casos mais positivos o do setor sucroalcooleiro, que nos últimos anos vivencia a disseminação de práticas de boa gestão no seu conceito mais amplo. Vale lembrar que, durante a grave crise pela qual o setor passou, grupos chegaram a quebrar em razão de investimentos mal dimensionados.
Por outro lado, ainda há setores, como no caso da produção de carne, que precisam avançar, apesar de serem altamente competitivos em termos de produtividade “dentro da porteira”. “Desafios em termos de governança, controladoria, processos e gestão de caixa seguem ainda muito presentes para o produtor.”
Para ele, parte dos investimentos em melhoria deveria passar pela gestão de riscos a fim de diminuir os impactos causados pela aceleração das mudanças climáticas e pela adoção de boas práticas socioambientais.
Não à toa o trabalho da área comandada por Rodrigues atua em muitos projetos de implantação ou fortalecimento de um bom modelo de governança, com impacto que vai desde as atividades do dia a dia da propriedade rural até mesmo ao processo sucessório de empresas com gestão familiar: “os casos mais bem-sucedidos de profissionalização de gestão fazem com que o negócio dependa cada vez menos do seu fundador ou dos familiares próximos”.









