O Brasil na vanguarda da transição energética
Políticas públicas e investimentos são essenciais para transformar o potencial mineral em desenvolvimento sustentável
Quando se fala em redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) para interromper o aumento da temperatura do planeta, a transição energética é apontada como uma das estratégias mais impactantes, já que esvazia o papel dos combustíveis fósseis.
Para viabilizar as alternativas limpas – como veículos eletrificados, placas fotovoltaicas e as turbinas eólicas – é necessário usar os minerais críticos e estratégicos (leia abaixo). O Brasil pode ser um dos principais competidores globais graças às suas reservas de minerais como lítio, cobre, níquel e terras raras.
As terras raras, que têm esse nome porque apresentam um aspecto terroso e por serem de difícil separação dos óxidos individuais nestes minerais, são compostas por 17 elementos químicos, estratégicos devido ao uso em tecnologias avançadas, como eletrônicos, energias renováveis:
Em aceleração
Dados divulgados em abril pela Agência Internacional de Energia (AIE) estima que, com base nas configurações de políticas atuais, até 2030, quase um em cada três carros nas estradas deverá ser elétrico.
Nos Estados Unidos e na União Europeia a relação deverá ser de quase um em cada cinco veículos. A projeção para a próxima década, considerando a pressão pela descarbonização, aponta para uma demanda crescente. Quando se analisa, por exemplo, as baterias dos veículos elétricos, há pelo menos três combinações mais comuns de minerais estratégicos. Confira:
Relevância brasileira
Segundo estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil tem a terceira maior reserva de terras raras de todo o mundo, com 21 milhões de toneladas (em Minas Gerais, Amazonas, Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e Roraima), ao lado da Rússia. Os maiores depósitos se concentram na China (44 milhões de toneladas) e no Vietnã (22 milhões de toneladas).
Atualmente, estão em andamento no país projetos relacionados a lítio, grafite, níquel, cobre e elementos de terras raras. No entanto, na avaliação de Raul Jungmann, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o país deve investir no desenho de uma política de governo que viabilize o melhor aproveitamento desses recursos.
A Sigma Lithium, por exemplo, hoje o quarto maior complexo industrial mineral de lítio do mundo, desde sua fundação, em 2012, trabalha com as melhores práticas de sustentabilidade socioambientiais na produção do Lítio Verde Quíntuplo Zero. Ou seja, uma operação carbono zero com zero uso de água potável, zero uso de químicos nocivos, zero barragem de rejeitos e zero uso de energia a carvão, segundo a empresa.
Ainda segundo o Ibram, no ranking mundial de minerais para transição energética, o Brasil ocupa a 14º posição na produção de cobre, 4º em alumínio, 8º em níquel, 5º em lítio, 1º em nióbio, 14º em zinco, 7º em cromo, 4º em grafita; 16º em titânio, 4º em vanádio e 37º em chumbo.
“O Brasil está na vanguarda do processo de transição energética e pode se tornar o eixo central das cadeias de abastecimento industriais globais 'carbono zero’, aponta Ana Cabral, CEO da Sigma Lithium. Segundo a executiva, o país tem vantagens para ocupar essa posição. Entre elas, a matriz energética 85% renovável e de baixo custo, um significativo parque industrial, capacidade de execução e capital humano treinado, recursos naturais abundantes (com vários minerais da tabela periódica) e ambiente operacional de baixo custo.
Entre os primeiros passos estão os estudos para o mapeamento geológico voltados às informações sobre os minerais estratégicos para a transição energética. O tema já está na mesa de conversas entre o MME e o SGB, que se responsabilizaria sobre o levantamento.
“É preciso dotar o país de uma política. Para isso, algumas coisas são essenciais. Por exemplo, ao orientar sobre o que temos condições de verticalizar ou industrializar”, analisa Jungmann.
Em maio, durante o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, organizado pelo Ibram, pelo Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), instituto de pesquisa de atuação nacional, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e pela Humana Serviços em Sustentabilidade, foi lançado o green papel intitulado “Por uma política de minerais críticos e estratégicos para o Brasil e para o futuro”.
A publicação tem como proposta contribuir com o planejamento estratégico do desenvolvimento industrial do país conectado à promoção da indústria mineral. Com isso, é possível avançar com ações para a transição energética.
Jungmann explica que “o green paper é uma contribuição do setor empresarial para o governo, em especial ao Ministério de Minas e Energia, ao Congresso Nacional, à sociedade”. Em junho, o instituto apresentou o documento ao Congresso Nacional.
O diretor-presidente do Ibram salienta que o Brasil tem uma grande oportunidade na corrida da transição energética e seu papel na descarbonização global. “Antes de tudo, sem minerais críticos não há futuro, porque não vai haver o processo de transição e de superação da emergência climática. Os minerais críticos do Brasil representam um passaporte para o futuro”, explica.
Papel governamental
Artigo publicado pela AIE no início de agosto aponta que, “à medida que os governos buscam a transição dos combustíveis fósseis e aceleram a implantação de energia limpa, os formuladores de políticas estão dedicando mais atenção à garantia de suprimentos de minerais essenciais”.
Ainda segundo os autores, com o crescimento da demanda por materiais como cobre, lítio, níquel, cobalto e elementos de terras raras – essenciais para componentes tecnológicos de energia limpa – “as parcerias de governo para governo focadas no fornecimento de minerais estão se tornando uma ferramenta cada vez mais popular, ajudando a estabelecer estruturas de cooperação entre países produtores e consumidores”. No entanto, avaliam os pesquisadores da AIE, muitos desses acordos são descritos de forma genérica, sem detalhes de apoio.
“Ao tornar as parcerias mais concretas e transparentes, os governos podem enviar um sinal importante sobre como garantirão que novos projetos de mineração sejam desenvolvidos de forma responsável”, sugere o artigo da agência internacional.
A transição energética, dependente de minerais, sobretudo os críticos e estratégicos, segundo Ana Cabral, oferece oportunidades de desenvolvimento que não podem ser desperdiçadas pelo Brasil, que deve investir no mapeamento mineral do território, para que seja possível planejar investimentos com dados precisos, em uma base informatizada e unificada, abrangendo concentração, logística e energia disponível, por exemplo, além de estudos sobre demandas gerais de infraestrutura.
Com uma política industrial é possível avançar na cadeia produtiva, lidar com questões como flutuações da demanda global e acompanhar mais de perto os avanços tecnológicos. A visão integrada permite recorrer ao ajuste de oferta de acordo com as oportunidades de mercado, alinhadas às pautas ambientais e demandas climáticas.
Ainda segundo a executiva, uma política de Estado deve contemplar ainda a concessão de incentivos e parcerias, com contrapartidas voltadas à descarbonização e a uma transição energética justa e inclusiva.
Minerais críticos e estratégicos
Os minerais têm uma série de classificações, como no caso dos críticos e estratégicos, de acordo com as características do mercado em que estão inseridas.
Os minerais críticos têm papel relevante nas cadeias produtivas e no desenvolvimento econômico de um país, inclusive para a evolução de uma economia de baixo carbono. No entanto, podem envolver questões políticas e geopolíticas e regulações comerciais, por exemplo. São usados na fabricação de produtos como celulares, turbinas eólicas, painéis solares e carros elétricos.
Os minerais estratégicos incluem os críticos. No entanto, nem sempre o que é crítico para um país é para outro. Essa avaliação vai depender dos estudos e da definição de objetivos e da demanda, feita por cada nação, em relação às reservas e suas cadeias industriais.
Como explica Lúcia Xavier, pesquisadora titular do Cetem, quando se fala em minerais estratégicos, o Brasil leva grande vantagem. “A dotação mineral do país é diversificada. Temos vários minérios com alto teor, com importância econômica e passíveis de serem explorados.”









