Estudo defende importância dos biocombustíveis na segurança alimentar e energética
Levantamento de professora da USP mostra que uso do etanol e do biodiesel contribui para a redução de emissões e para a geração de emprego, crescendo junto com o agronegócio
O estudo Biocombustíveis como Solução Imediata e Eficaz para a Descarbonização do Transporte traz evidências científicas internacionais e dados brasileiros que comprovam que os plantios de cana-de-açúcar, milho e soja, associados à produção de biocombustíveis, colaboram para a segurança alimentar e energética. A pesquisa foi apresentada durante evento paralelo às reuniões da Organização Marítima Internacional (IMO), realizadas em abril, em Londres (Inglaterra).
O levantamento aponta que, de 1975 a 2024, o uso do solo para o plantio de culturas ligadas à produção de etanol e de biodiesel evitou a emissão de 1,6 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente, sem comprometer a liderança do Brasil em outras frentes do agronegócio. “O país se tornou, nesse período, o maior produtor e exportador mundial de soja, café, suco de laranja, açúcar, carne de frango e bovina, além de milho e celulose”, destaca a autora do estudo, Glaucia Mendes Souza, que é professora da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da Força-Tarefa para a Descarbonização do Transporte com Biocombustíveis da Agência Internacional de Energia (IEA).
Segundo a pesquisadora, a produção de biocombustíveis não compete necessariamente com a de alimentos. Na avaliação dela, as críticas que apontam para uma competição partem, na sua grande maioria, de modelagens teóricas, e não de observações empíricas. O Brasil desenvolveu técnicas produtivas integradas e eficientes, desconhecidas por muitos formuladores de políticas internacionais: “Nós temos práticas que o mundo não conhece, precisamos divulgar isso”, diz.
O relatório destaca que menos de 13 milhões de hectares no mundo estão em uso para a produção de biocombustíveis — diante de 1,5 bilhão de hectares voltados à produção de alimentos e 3 bilhões dedicados a pastagens. No caso do Brasil, apenas 1,6% da vegetação nativa foi ocupada com a produção de cana para etanol. Ainda assim, o setor gerou 2,2 milhões de empregos com salários, em média, 46% maiores que os do restante da economia.
A professora também observa que há amplo espaço para expansão dos biocombustíveis sem afetar a produção de alimentos. “Essas culturas podem ser plantadas em áreas degradadas, o que ainda contribui para a recomposição do solo e potencialmente disponibiliza novas áreas para alimentos”, acrescenta.
Transição escalável
A apresentação contou com o apoio de representantes da indústria, entre eles a Be8, uma das principais produtoras brasileiras de biodiesel. Para o diretor de transição energética da companhia, Camilo Adas, o estudo simboliza um momento de articulação rara entre academia, setor produtivo e Estado. “Estamos abordando informações não para defender uma estratégia exclusiva, mas para uma transição energética socialmente justa e escalável”, afirma Adas.
A IEA estima que ao menos 10% dos combustíveis fósseis precisarão ser substituídos por biocombustíveis até 2030 para viabilizar os compromissos climáticos até 2050. Entretanto, o avanço ainda esbarra na lentidão do desenvolvimento de novas rotas tecnológicas, como os combustíveis de resíduos. Nesse contexto, os biocombustíveis de primeira geração se apresentam como solução imediata porque já têm infraestrutura existente e benefícios comprovados.
Adas enfatiza a necessidade de um modelo de transição energética que não exclua países em desenvolvimento. “É preciso permitir uma transição energética em base global, em que cada região possa contribuir com o que tiver de melhor — e não simplesmente predefinir rotas tecnológicas que apenas um grupo de indústrias queira desenvolver”, afirma. Ele ressalta, ainda, que o Cone Sul tem um papel estratégico na descarbonização.









